Abra a segunda gaveta da sua casa, aquela. Provavelmente tem ali pelo menos um aparelho que pareceu genial no anúncio e foi usado três vezes. Não é falta de juízo: é que a decisão de comprar acontece no momento do entusiasmo, e o uso acontece na rotina, que é um juiz muito mais duro.
Pergunta 1: com que frequência o problema aparece?
Um aparelho que resolve um problema mensal quase sempre vira peça de gaveta, porque a memória de que ele existe se apaga entre um uso e outro. O que sobrevive é o que resolve algo que acontece toda semana, de preferência todo dia. Migalha em teclado, poeira em fresta, cabo bagunçado: problemas pequenos e frequentes são o território natural do gadget útil.
Pergunta 2: qual é o atrito para usar?
Cada etapa entre a vontade e o uso derruba a chance de o aparelho ser usado. Precisa carregar antes? Achar o cabo? Montar? Cada passo é um pedágio, e a rotina não paga pedágio caro. Por isso aparelhos pequenos, que ficam à mão e ligam na hora, ganham de aparelhos melhores que exigem preparo. O melhor gadget do mundo, guardado em caixa no alto do armário, perde para o medíocre que fica na mesa.
Pergunta 3: o problema é grande o suficiente?
Há incômodos que a gente tolera bem e outros que corroem. Teclado sujo incomoda quem trabalha oito horas nele; para quem usa o computador dez minutos por dia, não é problema nenhum. O mesmo objeto é indispensável para uma pessoa e inútil para outra, e nenhuma review resolve isso por você. A pergunta certa não é "esse aparelho é bom", é "esse incômodo é meu".
- Prefira o que fica visível e à mão: o que some da vista some do uso.
- Desconfie de aparelho que exige acessório que não vem na caixa.
- Peça pequena com bateria interna vence peça grande com fio, mesmo sendo menos potente, porque vence o atrito.
- Se você precisa se convencer de que vai usar, você não vai usar.
A curadoria da Capí só olha para tecnologia que passa nas três perguntas. O resto é gaveta.
